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Família Antoniazzi

 
Claudio Antoniazzi
31 de Mar de 2010 23:48

Uma pequena história da ultima imigração italiana que veio para o Brasil – Em Vale Vêneto – RS

A viagem começou em Trevisio, com embarque no trem, com destino a Genova(Porto).
A embarcação era composta de várias famílias: Antoniazzi, Vendúsculo, Zegocassol, Sponchiado, Darós, Soldera, Rosso, Missio, Bocalon, Catto. O chefe ou cabeça do grupo, era FRANCESCO ANTONIAZZI.
As mulheres e crianças lhe perguntavam: -‘Quando é que embarcamos?’ Ele respondia: -’Hoje a noite.’ Depois que se acomodaram. –‘Quando é que chegamos?’ –‘Amanha cedo’, ele respondia. Assim transcorrendo os 36 dias de viajem para a América, com destino ao Brasil. Sempre as mesmas perguntinhas, e sempre as mesmas respostas...
Até que aportaram em São Paulo, no Porto de Santos. Todos agradeceram ao céu, por terem chegado sãos e salvos em terras americanas.
DO NAVIO TRANSATLANTICO, foram para o barracão dos imigrantes com a certeza de noutro dia, prosseguirem para Porto Alegre. Mas os fazendeiros de café não queriam deixá-los. Teimavam que ficassem para se empregarem nas fazendas. Os imigrantes, porém, resistiam: -‘Nós queremos nosso destino, o Rio Grande do Sul. Para este partimos e iremos pra lá. Aqui de jeito algum’. Então os latifundiários combinados com outros não os forneceram comida. -’Ou vocês se empregam ou não ganham “Bóia”!’ De fato, jejuaram uma refeição, até que Franscesco vestiu seu melhor terno, e na corrente do relógio brilhava uma medalha de ouro, que ganhou em um concurso de agricultores na Itália. Dirigiu-se diretamente ao Imperador D. Pedro II, que se encontrava por alí, que viera dar boas vindas aos imigrantes. Contando-lhes as misérias que estavam curtindo, por não quererem ficar. –‘Viemos para colonizar o Rio Grande do Sul. Aqui esta a medalha de honra que conquistei como agricultor. Não queremos ficar em São Paulo como assalariados!..Queremos prosseguir... ’ Retornando ao acampamento, encontrou os patrícios vibrando, com as mesas bem servidas. Puderam naquela noite, dormir o sono tranqüilo.
Já na manhã seguinte, reembarcaram com destino a Porto Alegre então chamado “Porto dos Casais”, levando algum tempo, visto que, o navio costeiro era de carga e tinha que passar em vários portos.
À descarga das bagagens, seguiu-se logo e reembarque em um vaporzinho fluvial, recomeçando a viagem Jacuí acima, até a antiga ponte que fazia a travessia da estrada de ferro. Obra do Engenheiro Giuseppe Garibaldi.
As mudanças foram então acondicionadas em carretas de bois iniciando-se uma longa via-sacra. Mas somente no dia seguinte, começou-se a viagem. Os imigrantes levantavam muito cedo, não assim os carreteiros, que acordavam mais tarde. Acendiam o fogo e tomavam chimarrão. Os exiles (deportados) observavam e comentavam:-‘Varda lá, Che gusto! E Che pressa! I buta um poça de erba dentro duna succa, i tra acqua bointe, e i ciucia quel mesticro com um canette de lata... Cev’essa um gusto, nos?’ Depois recolhiam os numerosos bois, atrelavam-nos nas carretas, e iam então, tomar seu café... –‘Me vien sú is agrícoli a vede la pressa Che i gá!!!’ Criticavam, pois estavam mais que ansiosos para chegarem ao fim daquela aventura.
Rodavam então 2 horas antes do meio dia, paravam e ‘vá mate!’ quando faziam comida, botavam na panela um saco que parecia de couro, saco que fervia até tarde da noite, no outro dia, temperavam o feijão que comiam... Os de Vale Vêneto nos explicaram mais tarde, que era o “charque” ou “carne secada”... –‘Ban, bem: cosa faro? Che la vegna come la viem... ’ e cantarolavam ‘E per noi altri Italiani, in Itália mai più’.
Durante a tarde avançavam mais algumas horas, e paravam, pois caía a noite. Os imigrantes retiravam então dos caixotes algumas cobertas e lençóis, armando uma barraca cada família. Quando o chão se encontrava encharcado, tinham que cortar galhos e colher capim para poderem arranjar algo, onde conciliar o sono. Assim foi toda a lenta caminhada que duraram 15 dias, ainda mais prejudicada com contínuas chuvaradas, de um e mais dias inteiros.
Com a demora do avanço, chegou a faltar comida:- ‘Adesso far cosa, Che mon si vede gnanca na casa?... Dio provvede enche per i ozéi’ – disse Francesco –‘proverá anche per noi’. De fato, quando amanheceu, ao galgarem (escalarem) uma coxilha, apareceu uma fazenda na seguinte... – ‘Demmo, lá in arquanti omini, cataremo qualche cosa’ -‘Ma come faremo, se moialtri no cappimo il brasilier, e lori noi capisce il Talián?’... Alguém com mais coragem tomou a frente, aparecendo o fazendeiro prevenido, com capangas. O grupo ergueu os braços, dizendo que tinham fome, e buscavam víveres, apontando o laranjal.
O senhor ordenou aos pretos que apanhassem as frutas, quantas quisessem, enchendo várias bolsas... Esfregaram então o indicador com polegar, e o proprietário fez sinal que nada deviam. Despediram-se com gestos de cabeça e apertando a mão benfazeja (saudavelmente). Desceram ao acampamento lá embaixo, na restinga, alcançando-o pelo meio dia. Que expectativa e que fome, meu Deus! Com laranjas se arranjaram por três dias e noites, paralisados aí pelas chuvas.
Na alvorada (nascer do sol) do terceiro dia, passou um cavaleiro que se dirigia a Vale Vêneto. Os carreteiros encarregaram-no de avisar Paolo Bortoluzzi, que vinha chegando nova leva (“remessa” de gente), que estavam na miséria, e que providenciasse algo para socorre-los. No dia seguinte, já volto, vieram duas pessoas, com dois cavalos com cargueiro e comida... -‘Benedetta Providenza Del Signor!’.
Combinaram com eles, que voltariam já no dia seguinte, levando consigo mulheres e crianças, enquanto os homens acompanhariam a mudança.
Quando esse grupo chegou a certa distância, vislumbrando os montes, disseram: -‘Varda come in América i mate via il fieno per varnar lê beste!’ Os guias lhes explicaram que eram picos da cordilheira montanhosa, onde iam parar. Anoitecia bastante, quando se aproximaram de uma sanga, pedregosa, cujas águas alentadas pelas chuvas murmuravam nos pedreiros. –‘Sinti che barúio... i ne dizêa próprio, che nel Brasil ghe gera bestie feroci... Ascolte che barúio che lê fá’ Os condutores aquietaram-nas dando-lhes a conhecer que o ruído era do cascatear da correnteza. Alcançaram enfim, “o paesello”, e todas com seus filhinhos, quiseram logo deitar.
Alguns dias depois, se ouviu também o rangido das carretas, cujos enormes xodados, chiavam agudamente de encontro ao volumoso eixo de madeira, falta de lubrificantes. Vinham chegando os trastes e os homens. O que provocou imensa alegria entre eles e no pessoal de Vale Vêneto, e voltou a ouvir-se o canto: “Che la vaga ban, che la vaga mal...” algo fatalista, bastante esperançoso, e a cruel realidade. Viesse o que viesse “Non si dá retorno in Pátria!”
Transcorrido algum tempo, o Estadista Silveira Martins, enviou um seu contínuo para transferir esta leva de éxules para Novo Treviso.
Nova Via – Cruéis!... Uma manhã muito cedo partiu os homens, com um prático do caminho, que não existia, pois o que havia era somente campo e mato. Indicava: “Temos que passar naquelas árvores do capão, coxilha, baixada...” E assim por diante até Dona Francisca. Lá se pousava no duro assoalho, para no outro dia, penetrar na mataria adentro, até o destino. No mesmo dia retorno a Dona Francisca, “per dormir sul mundo terreno”, e com um terceiro lance atingir Vale Vêneto, já anoitecendo.
Passado algum tempo, os homens viajados combinaram: “Amanhã bem cedo, vamos a Geringonza (Novo Treviso)” para iniciar desbocamento e outros partiram numa madrugadinha fechada de cerração, caminharam e caminharam no nevoeiro... Quando enfim o sol brilhou, estavam perdidos... “Ove si troviamo?” No Vavaí, entre Arroio do Só, e Restinga Seca. Alguém que já “balbetava” a língua brasileira, informou-se em que direção ficava “La val dei Bortoluzzi (Vale Vêneto)”. E retornaram a localidade... “Bem enquanto houve cerração não vamos arriscar-nos mais”.
Numa aurora sem névoa, partiram de novo, rumando pelos pontos que o prático lhes indicava, e ao cair da noite, alcançaram Dona Francisca. Dormiram “sul nudo terreno”, mas contentes, pois que “piá piano” iam aprendendo “lê cosa desta Mérica” ... “Alto que mazzolin di fior”.
No alvorecer, embrenhara-se na floresta (pelo pique aguço, que subindo e descendo embicava no “Formoso”, e por este acima até “Busada”) – até Novo Treviso.
Ergueram tosco rancho (lote simples, grosseiro) comum onde parar, enquanto desbocavam alguma roça. Nelas, após a queima, construíram moradias para quem primeiro entrasse, para em seguida erigir outras casas para outras famílias. Aprontadas estas, já com uma primeira safra de subsistência à vista começaram as mudanças.
Um novo Calvário. Tudo carregado nas costas da pobre gente. Um pouquinho de cada um, com que pudesse arcar até Dona Francisca, não antes de anoitecer. Lá se pousava, agora com a família, allá meglio, para no amanhecer seguinte, retomar a carga até Geringonza. A gente nova inquiria (perguntava): “Onde fica Geringonza?” e Francesco respondia: “Logo aí, logo aí, corragio” daí a pouco a mesma pergunta e a mesma resposta: “Vicin, vicin, avanti!” enfim chegaram.
A gurizada não gostou por se verem ilhados na mata feraz (fértil). No entanto o fluxo imigratório continuava. Cheios de fé e esperança, enfrentando mais esta etapa, que no final contou até com um burro de carga, para transportar os últimos trastes. Então Dona Francisca e Treviso, digo Dona Francisca e Novo Treviso, se formara um atoleiro no pique assombrado, bem, mas imediações de uma casa dum brasileiro. Lá de dentro veio gritando: “Não passem aí porque a besta atola!” olharam-se e disseram: “Mi no vedo tolls quá?” e a besta afundou até a barriga no lamaçal. O homem veio correndo para retirar a montaria capturada e impotente. Assustaram-se ainda mais, vendo o brasileiro correndo para eles. Mas ele, traquejando, cuidou de logo descarregar a basta para eles, e sacola do tremedal. Reposto o cargueiro, desaprovou: “Eu disse que ia atolar” “Si, si...” Agradeceram e partiram, comentando: “Bisogna cha stemo atenti: quando che i dize ‘attola’, voul dir, ohe se impianta sul barro”.
Nesta epopéia da mudança para os núcleos distantes e sem estradas, os objetivos mais pesados, como caixotes, eram amarrados com cordas, e inçados por uma vara, com dois homens carregando nos ombros em fila indiana, levando no transporte, até dois dias ou mais.
Enfim, terminou mais esta aventura: “Adesso preghemmo il rosário, per ringraziar il signor e la Madonna Del buon viaggio che havemmo fatto” terminada a prece familiar, em dois coros, ajoelhados no chão batido do rancho primitivo que se ia enegrecendo de fuligem (fumaça), soergueram os cansados membros e, com os vizinhos que tomaram parte na liturgia doméstica entoaram (harmonizaram) na grande noite de sertão: “Che la vaga bem, che la vaga mal, siamo sul fior della gioventù... Noi altri Italiani, in Itália mai piú...”
Este é, em resumo, a história que minha mãe me contou... Ela tinha 9 para 10 anos, imigrando junto com o pai Francesco e Catarina S. Antoniazzi, vivendo em profundidades a aventura da imigração.

( História contada por Antonio Catto(em memória) à Amabile Matia Rosso(em memória) quando ela estava coletando dados para montar a Genealogia de Nicolau Rosso e Pierina Antoniazzi no ano de 1983)

 

 

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