Histórias sobre o Cap. Thomé Pires Cerveira
Parte #1
As histórias sobre o capitão Thomé Pires Cerveira, meu trisavô, mereceriam um livro. Não só mereceriam, como um dos seus descendentes o escreveu! Uma bela obra, por sinal, que conta várias histórias dele, mas também as de outros antepassados. Ler essas histórias não é apenas uma curiosidade sobre a origem de alguns de nós, mas uma real lição sobre a formação de nossa terra.
Começo com um trecho do livro de Duclece Pires, cujo nome é "Os Provisórios - A Saga dos Pires Cerveira".
Tito A. Rossi Filho
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A Segunda Geração
O falecimento de Maria Hygena, deixou o capitão Thomé muito desolado, ela foi a sua leal companheira por mais de meio século, mesmo com seus 73 anos de idade, mostrava há ainda muita vida, notadamente pelo seu porte esguio e seus enormes olhos verdes, que através do brilho forte, destacava a imagem de sua presença como esposa e mãe dedicada.
Possuía uma personalidade pacificadora e um grande senso de justiça, qualidades que sempre a notabilizaram, frente as contendas em que se via envolvidos seu marido capitão Thomé Pires Cerveira, revolucionário ou bem destinados pela causa da consolidação das fronteiras do império do Brasil e na unificação da província Rio-grandense, em constantes movimentos separatistas, reminiscências da revolução Farroupilha, que perdurou até mesmo depois do começo do século XX.
Narciso Pires Cerveira e José Pires tiveram atuação nas campanhas legalistas no começo do século XlX, porém com o surgimento dos ideais separatistas liderados por Bento Gonçalves, Onofre Pires e outros, colocaram sua tropa provisória a serviço dos Farroupilhas, defendendo as vastidões dos campos de baixo da serra e sempre e sempre que a ordem era restabelecida, voltavam para suas propriedades, onde novos preparativos a eram feitos para reorganizar o arsenal e descanso da tropa.
Foi neste agitado período de beligerância que os primos Thomé e Ernesto viveram suas infâncias, de certo modo, participaram dos acontecimentos estando na retaguarda, com as lidas em todas as frentes dos trabalhos das fazendas. Terminada revolução Farroupilha, os então ainda jovens, Thomé e Ernesto, recebiam uma educação cuidadosa, de acordo com os costumes culturais trazidos de tempos imemoráveis, o padre da paróquia da freguesia da Conceição foi o principal artifície nesta empreitada, ensinando as letras, a matemática, as leis constitucionais e a fé cristã, que foram a base sólida da carreira de defensores da pátria, na campanha da guerra do Paraguai ali tiveram destacada participação recebendo as patentes de oficiais da guarda nacional e do exército de sua majestade imperial.
O capitão Thomé Pires Cerveira e o primo tenente Ernesto Pires, retornaram da guerra, depois de terem permanecido por 2 longos anos nos campos de batalha da mais hedionda e sanguinária guerra do sul da América. Os jovens veteranos tinha deixado mulher e filhos antes de partir para a guerra, e ao retornarem a apresentavam um amadurecimento profundo, e nas suas antigas idéias separatistas, uma nova visão muito mais robustecida a, onde se projetava o verdadeiro ideal.
A realidade frente aos ideais, tinha tomado outro rumo. As marcas da guerra atingira impiedosamente o íntimo de seus sentimentos, devido às barbáries praticadas em nome da tríplice aliança. As décadas seguintes não foram diferentes, fervilhavam em todos quadrantes do império movimentos armados com os mais variados motivos, o mais importante de todos, sem dúvida, foi o movimento abolicionista, o qual ganhou força com os acontecimentos da campanha do Paraguai.
No sul, as rixas entre as facções políticas dominantes, ainda estavam fortes, os mais influentes era os republicanos e os federalistas e, que viviam em constantes confrontos nas coxilhas do pampa. Os Pires, como os senhores de escravos, a eram portanto, ferrenhos escravocratas. Nas suas senzalas, praticavam-se toda sorte de despotismo bárbaro. Quando algum escravo cometia uma falta qualquer, era punido severamente pelo feitor que, quase sempre, abusava de sua autoridade, à revelia do conhecimento dos senhores da fazenda, usando dos mais torpes instintos de requintada crueldade.
O feitor da fazenda do cadeia era o Gaudêncio, sargento-mor da tropa provisória do capitão Thomé; e o Juvêncio, era feitor da fazenda do cafundó, ajudante de ordens do tenente Ernesto Pires quando partiu em missões revolucionárias.
Homens como Thomé e Ernesto foram na guerra do Paraguai acostumados às práticas de crueldade arbitrárias e repugnantes nos campos de luta, tinham como o código de guerra trazido das batalhas fraticidas de Cerro Corá, a prática do extermínio de seus indefesos prisioneiros, os quais após cavarem enormes valas, eram colocados de pés, e em filas, rentes aos valetões cavados, com as costas viradas para as mesmas, de mãos amarradas para trás, despojados de suas roupas, para que ficassem atentos ao olhar os seus derradeiros momentos. Uma carga de cavalarianos, brandindo espadas, arremessavam-se em disparada contra os infelizes, na evolução das lâminas, por movimentos marciais, ao som de gritos histéricos, praticava uma sanguinária degola em massa, e nos estertores da vida, os corpos iam caindo diretamente para dentro das valas. Depois muitas vezes ainda com vida, eram cobertos com terra.
Tinham por hábito deixar sempre um prisioneiro vivo, assistindo aquela atrocidades, para depois, então receber um castigo bastante cruel, mas que ainda lhe sobrassem condições de sobrevivência para, ao ser solto e mandada embora, contar tudo aos outros. Servindo de exemplo a não mais retornarem por aquelas bandas com a missão de saquear propriedades acobertados por alguma facção revolucionária. Também cultivavam o requinte do extermínio em massa de seus prisioneiros, com isso deixavam de ser uma carga incômoda, além de claro, servia de advertências com um modelo inapelável nas decisões de julgamento para com o inimigo vencido.
As crueldades eram alimentadas por uma escala sem limites, crescendo na medida em que outras iam acontecendo ao sabor de uma ferocidade incontrolável, consumindo, aos poucos, o sentimento e razão para dar lugar a um ser hediondo. Na verdade, Thomé e Ernesto foram homens forjados na coragem dos pioneiros desbravadores, cujos valores de bravos combatentes ficou demonstrado nos renhidos combates da guerra do Paraguai, onde conquistaram o respeito e o reconhecimento de seus comandantes pelas lideranças de ambos no cumprimento de dever, ao retornar da guerra reorganizar um grupo que formava pequena força provisória, remanescente do tempo de seus pais, Narciso e José, cujos feitos fizeram a história de nossa ancestralidade.
Pires, Duclece, Os Provisórios - A Saga dos Pires Cerveira, Edição Independente, 1997